Todas as religiões têm seus mitos e lendas, nossa religião não fica de fora. Nós também temos nossos mitos e lendas. Eu não especifico esses mitos como sendo próprio da Wicca, mas sim, do paganismo. Aqui eu colocarei mitos pagãos e de deuses de todos os lugares: Celtas, Nórdicos, gregos, egípcios, hindus...
A Lenda da Descida da Deusa ao Mundo Subterrâneo
(Mito tradicional da Arte)
Nos tempos antigos, nosso Senhor, o Cornudo, era (e ainda é) o Consolador, o
Confortador. Mas os homens o conheciam como o terrível Senhor das Sombras,
solitário, inflexível e justo. Mas nossa Senhora, a Deusa resolveria todos os
mistérios, até mesmo o mistério da morte; e assim ela viajou ao Mundo
Subterrâneo. O Guardião dos Portais a desafiou...
"...Tira tuas vestes, põe de lado tuas jóias, pois nada tu podes trazer contigo
o interior desta nossa terra."
Assim ela se despojou de suas vestes e de suas jóias, e foi amarrada, como todos
os vivos que buscam ingressar nos domínios da Morte, a Poderosa, têm que ser.
Tal era a beleza dela, que a própria Morte se ajoelhou e depositou sua espada e
coroa aos seus pés...
... e beijou seus pés, dizendo: "Abençoados sejam teus pés, que te trouxeram por
estes caminhos. Permanece comigo, mas deixa que eu ponha minhas mãos frias sobre
o teu coração”.
E ela respondeu: "Eu não te amo. Por que fazes todas as coisas que amo e nas
quais me comprazo fenecerem e morrerem?".
"Senhora" – respondeu a Morte – "trata-se da idade e da fatalidade, contra as
quais sou impotente. A idade, o envelhecimento, leva todas as coisas a
definharem; mas, quando os homens morrem ao desfecho de seu tempo, concedo-lhes
repouso, paz e força para que possam retornar. Mas tu, tua és linda. Não
retornes, permanece comigo." Mas ela respondeu: "Eu não te amo”.
E então disse a Morte: "Se não recebem minhas mãos sobre seu coração, tens que
te curvar ao açoite da Morte." "É a fatalidade, melhor assim..." – ela disse e
se ajoelhou. E a Morte a açoitou brandamente.
E ela bradou: "Eu conheço as aflições do amor."
E a Morte se ergueu e disse: "Sejas abençoada." E lhe deu o beijo quíntuplo,
dizendo: "Assim apenas pode atingir a alegria e o conhecimento."
Então a Morte desamarra os seus pulsos, depositando o cordel no chão.
E ele a ela ensina todos os seus mistérios e lhe dá o colar que é o círculo do
renascimento.
A Deusa, então, toma a coroa e a recoloca na cabeça do Senhor do Mundo
Subterrâneo.
E ela ensina a ele o mistério da taça sagrada, que é o caldeirão do
renascimento.
A Deusa toma o cálice em ambas as mãos, eles se entreolham, e ele coloca ambas
as mãos nas dela.
Eles amaram e se tornaram um, pois há três grandes mistérios na vida do homem, e
a magia os controla todos. Para realizar o amor, tendes que retornar novamente
no mesmo tempo e no mesmo lugar daqueles que são os amados; e tendes que
encontrá-los, conhecê-los, lembrá-los e amarrá-los de novo.
O Senhor do Mundo Subterrâneo solta as mãos da Deusa e esta recoloca o cálice no
seu lugar. Ele toma o açoite em sua mão esquerda e a espada na sua mão direita e
fica na posição do Deus, antebraço cruzado sobre o peito, espada e açoite
apontados para cima. Ela fica na posição da Deusa, pernas escarranchadas e
braços estendidos formando o pentagrama.
Mas para renascer tendes que morrer e ser preparado para um novo corpo. E para
morrer tendes que nascer, e sem amor não podes nascer. E nossa Deusa sempre se
inclina para o amor, e o júbilo, e a ventura; e ela protege e acaricia suas
crianças ocultas na vida, e na morte ministra o caminho da comunhão com ela; e
mesmo neste mundo ela lhes ensina o mistério do Círculo Mágico, que é disposto
entre os mundos dos homens e dos Deuses.
A Origem da Orquídea
Como as flores, a orquídea tem uma lenda. Eis a encantadora história, como é
contada nas terras da Indochina.
Na cidade de Anam, existia uma jovem chamada Hoan-Lan, que divertia-se em fazer
penar suas paixões aos seus numerosos adoradores. Por um sorriso, o jovem
Kien-Fu tinha cinzelado o ouro mais fino e trabalhado com infinita paciência as
mais lindas peças de jade. A ingrata, após se adornar com todos os presentes do
nobre apaixonado, riu-se dele e o desprezou. Kien-Fu, desesperado, acabou com a
própria vida atirando-se ao Rio Vermelho. O pintor Nguyen-Ba conseguiu obter
cores desconhecidas para pintar o retrato de sua amada. Esta, porém, depois de
ter exibido para a satisfação de sua vaidade a magnífica pintura, desprezou o
artista que desapareceu para sempre no mistério das selvas. Mai-Da, apaixonado
também, quis patentear seu amor à jovem volúvel, inventando um perfume delicioso
somente digno dos anjos. A ingrata perfumou-se e mandou pôr na rua o seu
adorador que, nada mais aspirando na vida, se envenenou.
Cung-Le levou sua perseverança a incrustar nácar numa pulseira de ébano que foi
recebida pela ingrata. O pobre endoideceu.
Mas o poderoso Deus das Cinco Flechas, deus que a tudo via e tudo ordenava,
julgou que era o momento de castigar tanta maldade, fazendo a jovem volúvel
apaixonar-se pelo formoso Mun-Cay. E desde então, Hoan-Lan sonhava no seu leito
de nácar e sedas bordadas com seu adorado, cujo nome esvoaçava sobre seus lábios
de carmim, como uma borboleta sobre a rosa. Ao despertar, descia à piscina,
banhava-se e adornava-se com suas jóias mais preciosas para ver passar seu
querido Mun-Cay, que apenas se dignava a levantar os olhos para ela. Nunca tinha
considerado a formosa jovem, nem se interessado pela fama de beleza que tinha
ardido à sua volta. Os dias iam passando, e Mun-Cay não saía de sua indiferença
cruel. Um dia, Hoan-Lan decidiu sair-lhe ao encontro e declarar-lhe paixão.
- Não me interessas, rapariga ! - disse ele. - És como todas as outras. Para mim
não vales nada. Se fosses como aquela que eu amo... Esta sim, é uma deusa. Tu,
mísera Hoan-Lan, com toda tua vaidade, não serves nem para atar-lhe as fitas das
sandálias. E, com um sorriso desdenhoso, afastou-se.
Em meio de seu desespero, Hoan-Lan lembrou-se do Deus Todo Poderoso que vivia na
montanha de Tan-Vien. Talvez ele pudesse lhe valer. Apesar da noite escura e
chuvosa, a jovem dirigiu-se ao monte sagrado, onde residia sua última esperança.
A entrada do templo subterrâneo era guardada por um terrível dragão.
Suplicou-lhe a concessão de entrada e ao cabo de muitos pedidos conseguiu
penetrar num extenso corredor, por entre serpentes horríveis que lhe babujavam
os pés nus. Quando chegou junto ao trono de ônix do poderoso gênio, prostrou-se
e implorou:
- Cura-me, que sofro horrorosamente. Amo Mun-Cay que me despreza.
- É justo o castigo - respondeu o deus - Porque isso mesmo tens feito aos teus
apaixonados.
- Ó Todo Poderoso, tem dó de mim. Concede-me o amor de meu querido Mun-Cay.
Sabes bem que não posso viver sem ele.
- Vai-te daqui - rugiu o gênio - Nada conseguirás. O castigo que pesa sobre ti,
foi imposto pelo Deus das Cinco Flechas, que tudo sabe. É justo que sofras. Saia
do meu templo. À saida, Hoan-Lan encontrou-se com uma bruxa de pés de cabra.
- Formosa jovem - disse-lhe a bruxa - sei que és muito desgraçada. Queres
vingar-se de Mun-Cay ? Vende-me a tua alma e juro-te que, embora Mun-Cay não te
ame, não amará a outra mulher.
Hoan-Lan, voltou à sua casa, que lhe parecia um cárcere. Saía para os bosques a
distrair sua pena, mas sempre em vão. Um dia, vendo ao longe seu adorado Mun-Cay,
correu para ele e, quando se preparava para abraçá-lo, o jovem foi transformado
numa árvore de ébano. Neste momento apareceu a bruxa que, soltando uma
gargalhada, lhe disse:
- Desta maneira o teu amado não pode ser nunca de outra mulher.
- Bruxa infame ! - exclamou chorando, a pobre Hoan-Lan - o que fizeste a meu
adorado ? Devolva-me ou mate-me.
- Contratos são contratos - replicou a bruxa, rindo satanicamente. Cumpri o que
prometi. Mun-Cay, embora nunca te ame, não amará a outra mulher. Prometi e
cumpri. A tua alma me pertence. Hoan-Lan, abraçada ao pé da árvore, clamava
desesperadamente a seu tronco imóvel.
- Perdoa-me, Mun-Cay. Tem para mim uma só palavra de amor, de indulgência e
compaixão. Não vês como me arrasto aos seus pés, como te abraço, como sofro! Mas
a árvore nada respondia. A jovem ali ficou por muito tempo.
Uma manhã passou por alí um gênio que se compadeceu da sua dor. Acercando-se
dela, pôs-lhe um dedo na testa e disse:
- Mulher, procedeste muito mal. Foste volúvel até a crueldade e ingrata até a
malvadez. Procedeste muito mal. Mas tua dor purificou a tua alma. Estás perdoada
e vais deixar de sofrer. Antes que a bruxa venha buscar a tua alma, vou
transformar-te numa flor. Ficarás sendo, no entanto, uma flor esquisita e
requintada, que dê a impressão do que foi a tua vida maldosa. Quem vir as tuas
pétalas facilmente adivinhará o que foi o teu espírito, caprichoso, volúvel,
cruel, e a tua preocupação constante pela elegância. Concedo-te um bem: não te
separarás do bem que adoras e viverás da sua seiva, sempre parasita do teu
amado.
Assim falou o poderoso gênio. E, quando falava, a túnica rósea de Hoan-Lan ia
empalidecendo e tornando-se de uma delicada cor lilás. Os olhos da jovem
brilharam como pontos de ouro e as suas carnes tomaram a tonalidade do nácar. Os
seus formosos braços enrolaram-se na árvore na derradeira súplica. E assim
apareceu a primeira orquídea do mundo, segundo a lenda do Anam.
(Talvez muitas pessoas acreditem erroneamente que as orquídeas epífitas sejam
parasitas com base nesta bela lenda)